Nuno Faria

Desafios / Defiances

A gravidade é o mistério do corpo (Machado de Assis)

Frida Baranek (Rio de Janeiro, 1961) é uma escultora cujo percurso despontou no início da década de 1980, no seio de uma geração que recuperou a integridade e a potência das disciplinas artísticas tradicionais.

Com formação em arquitectura e em escultura, as suas obras oscilam entre a pequena e a grande escala, o uso de materiais industriais e de matérias mais delicadas como o papel, o têxtil ou pigmentos vegetais.

As peças apresentadas nesta exposição cindem-se em dois grupos: as de chão e as de parede. São peças de média escala que fazem dialogar diferentes materiais — o vidro e a madeira ou o ferro, a madeira e o acrílico; a pedra (mármore ou alabastro), tubo e fio de aço inox, respectivamente.

Se as peças de parede existem numa espécie de condição ambígua — entre e bidimensionalidade e a tridimensionalidade —, as peças pousadas no chão, que, por força da gravidade, imediatamente identificamos como escultura, constituem-se como um vocabulário de formas que se relacionam entre si através de jogos de variações e combinações aleatórias, alternando ritmos e dinâmicas, quase de forma musical.

De um certo modo, todas as peças pedem ao espectador que se molde à poética dos materiais, sejam eles fabricados, sejam eles colhidos, pedidos de empréstimo à natureza. É intemporal o fascínio que acordamos às formas, às cores e aos padrões de determinadas pedras, ou aos veios de determinadas madeiras. Não menos fascinante é a transparência do vidro ou de outros materiais como o acrílico ou o plexiglas. Transportam com eles a propriedade de se deixarem atravessar pelo olhar e de estimularem a imaginação do espectador.

Para citar Roger Caillois, poeta e inveterado recolector de pedras, «pour moi l’imagination n’est rien de plus qu’un prolongement de la matière, je pense que la poésie n’est pas un phénomène purement humain et qu’elle n’est pas un phénomène dû au seul langage. Si, maintenant, je ne m’occupe plus que de décrire des pierres, c’est pour montrer qu’à l’intérieur de ces pierres, et dans la façon dont elles trouvent leur forme, il y a des espèces de réduction, de miniaturisation, de toutes les choses qui sont au monde”.